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Página Inserida em Abr/2015   

MUNICÍPIO  DE  OSÓRIO

(Ex  Conceição do Arroio)

          


 

Fatos Pitorescos  (1950-1965) - I

Nota: Alguns dos fatos relatados  abaixo foram testemunhados pelo Autor; outros,  estão  sendo recontados, com base   no que foi  lhe  dito por pessoas de suas relações.

 

1 -  O bancário e o seu acordeon

 Ao chegar na cidade para vir trabalhar no Banrisul, um sujeito chamado Nelson Schuck, ainda solteiro,  foi residir no Hotel Amaral que ficava perto  da antiga estação rodoviária da cidade, então localizada no Ed. Jaeger. Conforme  contado  pela minha irmã (Haidé Mamed),  depois do expediente bancário, Nelson  pegava seu   acordeon  e  ficava sozinho,   tocando   músicas  românticas na sacada (balcão) do citado hotel, alegrando o pessoal que passava pelo local. Muitos, paravam de caminhar e ficavam ouvindo a música.   Foram belos tempos da cidade de Osório.  Essa sacada ficava no 1o. andar, de frente para a Av. Floriano Peixoto.  Uma das músicas que ele tocava era a conhecida  canção italiana  "A Estrada do Bosque".  Posteriormente, esse bancário  casou-se com a  filha (Consuelo) de um conhecido dentista da cidade, o saudoso  Ângelo Daltoé! Notas: 1) A foto abaixo mostra  a sacada (ou balcão), bem no centro  do Hotel Amaral.  2) Quando essa foto foi tomada (anos 1930 ou 40), havia  uma bomba de gasolina  na esquina do hotel. Dúvida:  A quem pertencia essa bomba de gasolina?

 

2 - A Praça da Conceição depois da missa de domingo

 Aos domingos de manhã, ao terminar a missa das 10 horas, o que acontecia por volta de 10h40min, e  se o dia estivesse  ensolarado, as pessoas (a maioria crianças e jovens)  que saíam da  igreja  não voltavam logo   para suas casas.  Ficavam na Praça da Conceição, caminhando em grupos  pela calçada que contornava a praça ou  entao ficavam conversando nos bancos de madeira que existiam na praça.   Os  namorados, ficavam dando voltas e voltas pela calçada em torno da praça. Essas pessoas   permaneciam  ali   até perto  do meio-dia.  Na época, era costume  dos rapazes e garotas da cidade  se cumprimentarem,  usando a expressão ÓH!!!

 

3 -  Os banhos no valão da Escola Rural

Em dias quentes  dos meses de verão, a gurizada ia para a beira da faixa Porto Alegre-Torres  (atual BR-101) e tomavam banho em um valão que existia entre a faixa  e a atual  Escola Rural. Na encosta do morro, junto à  Escola Rural,  funcionava a Estação Experimental (de Osório) que era  um posto da Secretaria de Agricultura do estado. Como  a gurizada   tomava banho completamente nua  no local - quase nenhum usava calções - e faziam algazarra durante o banho, a direção da Escola Rural (ou da Estação Experimental) mandava  um funcionário chamado Napoleão para afugentar os rapazes do local. Geralmente o Napoleão chegava de mansinho pra dar um susto na gurizada, dizendo que ia chamar a policia para prender todos eles.  Quando o Napoleão aparecia e era dado o sinal, a gurizada  saía às pressas do valão, e pegando suas roupas,  "se mandava"  do local. Eu mesmo, certa vez fiquei "de guarda" pra avisar a gurizada quando o Napoleao chegasse. Mas fiquei tão nervoso quando vi o Napoleão chegar que não  conseguia  gritar! Eu só dizia: Olha o Na..!!! Olha o Na....!!! Olha o Na...!!! Nesse meio-tempo, a gurizada, ouvindo o alerta, saía de dentro d'agua e  fugia do local.  Mas -  em verdade -  o   Napoleão só  me pegou pelo braço; e  depois de me dar um susto, me soltou. Depois dessa, eu nunca mais quis "ficar  de guarda" dos banhistas!!! Eles que fossem procurar "outro"!!!!

4 -  Fazendo "feitiçaria" nos campos de futebol

 Durante a semana que antecedia os jogos do GAO e Sul-Brasileiro, que eram sempre realizados sempre aos domingos, a direção  do clube onde ia acontecer o jogo, mandava  funcionários  vigiar o campo durante à noite, para evitar que torcedores da  equipe adversária  entrassem no local  para "fazer feitiço" no campo. "Fazer feitiço"  seria uma "espécie de bruxaria"  que consistia em enterrar um sapo, galo  ou outro animal morto  perto das goleiras,  colocando uma bandeja com farofa e comida  junto de uma vela acesa junto da camiseta do time da casa. A intenção desse pessoal (dos "feiticeiros")  era  criar "um clima" para impressionar os jogadores do time dono do campo!

5 -  Figuras folclóricas da cidade

Entre as diversas figuras  folclóricas   da cidade havia  o "Nenê Doido, o  Pedro Louco e  o Maneca da Selvina".   

5a -    O "Nenê Doido" era um  sujeito que morava ali pelos lados do Porto Lacustre ou mais além.  Ele  consertava guarda-chuvas e sombrinhas e sempre  carregava uma gaita junto. Quando via algum guri, punha-se a tocar sua gaita, oferecendo  uma bala   ou um doce pro guri e ficava "piscando o olho"  pra ele. Às vezes, o "golpe"   do Nenê Doido dava certo.  Na maioria dos casos,  os guris - sabendo da fama dele  -   saiam correndo quando viam o Nenê Doido se aproximando,  tocando a sua gaita! Contavam na época que o "Nenê Doido" era pedófilo,  mas ele não "piscava"  para as meninas; só para os meninos!

5b -   O "Pedro" era um sujeito, filho  de uma conhecida pessoa da cidade (seu Barroso era o apelido dessa pessoa). Pois o Pedro   tinha um "desvio mental"  e por isso a gente chamava ele de "Pedro Louco" visto que ele  tinha manias esquisitas.   Gostava de andar de tamancos e  calça de brim arregaçada nos tornozelos.   Pra mostar que tinha força ele gostava de pegar os meninos e torcer o braço deles. Na época ele devia ter uns 30 anos.  A gurizada tinha muito  medo dele. O que ele gostava mesmo era  de aplicar algum golpe nos "doceiros". Os  "doceiros" vendiam rapadurinhas, bolinhos, pastéis, merengues, etc.  Eles geralmente eram crianças  ou rapazotes de familias humildes que,  vendendo os doces, ajudavam com as despesas da casa.   Os doces ficavam dentro de uma caixa retangular com tampa inclinada de vidro, sendo que a caixa ficava pendurada no pescoço do doceiro  por uma tira de pano.    O "Pedro Louco",   vendo a gurizada chegar  perto de um  doceiro, louca pra comer algum doce, mas sem dinheiro pra comprar, se fazia de "bonzinho"  com as crianças. Chegava  perto do  doceiro, e mostrando o dinheiro que trazia no bolso, perguntava pros guris:

-   Alguém aí quer  comer  doce? Eu hoje tô pagando! Tá aqui o dinheiro, oh!

Os doceiros ficavam "loucos" quando viam o dinheiro na mão dele.  Se algum menino  dizia que queria  comer algum  doce,  O Pedro  dizia então pro guri escolher o doce.  Depois que 2 ou 3  guris pegavam  os doces, o "Pedro Louco"  dava as costas pro doceiro  e ia embora, deixando o coitado   a "ver navios".  Depois de "aprontar"   2 ou 3 casos desses, os doceiros saiam correndo com suas caixas de doce quando viam o "Pedro Louco"  se aproximando. Só dava doceiro correndo, balançando as caixas. "Pernas pra que te quero"!!!

5c -  O "Maneca da Selvina" era um sujeito que morava perto do antigo campo do GAO (na  rua   Sete de Setembro). Ele  era um baixinho  corcunda que circulava diariamente  pelo centro da cidade, pela estação rodoviaria  e indo  de bar em bar da cidade,  vendendo bilhetes  de loteria, etc.  Contava-se   na época  que ele tinha ficado corcunda quando  trabalhava na estação de trem, ali na Av. Getulio Vargas.  E que - certa vez -  caiu uma pilha de sacos  por cima dele!  Por isso ficou daquele jeito. Se isso é verdade, eu não sei.

6 -  O almoço familiar

 Certa pessoa muito conhecida, aqui chamada de P., tinha  fama de "mulherengo".  Certa vez  compareceu a um almoço de uma irmã sua   que  estava comemorando aniversário. A esse almoço tinham sido convidadas  homens e mulheres conhecidos  da família da aniversariante.  Depois de almoçar e  levantar da mesa,  o P.   chegou   na sala onde estavam sentados vários homens que já tinham almoçado e estavam ali   "batendo papo". Chegando ao ambiente - e vendo que não havia mulheres na peça   - saiu-se com essa "frase bombástica":

Ai! Que vontade que eu tô agora de dormir com uma mulher!!!!

Depois de uma risada geral dos presentes,  ele nao perdeu tempo e  complementou:

- Menos com a minha, é claro!

Aí a gargalhada foi geral que alguns - não se aguentando mais -  sairam  porta a fora da casa  para irem rir  na calçada.  A gargalhada foi tão alta  que  chegou até a peça  onde as outras   pessoas  estavam almoçando!   E todos que ali almoçavam (inclusive a mulher dele) ficaram curiosas para saber o que tinha acontecido na sala.

7 A geladeira

Certo "figurão" da cidade, aqui chamado de S.,  decidiu presentear uma geladeira para a dona de uma certa "casa de tolerância" (bordel), "casa" essa  muito conhecida da cidade. Era conhecida como a "Casa da M. "!  A bem da verdade, nao se sabe se  ele "presenteou" ou "ficou de fiador".   Esse estabelecimento   ficava  na rua Santos Dumont, além do antigo campo do Sul Brasileiro (GESB);  um pouco antes do antigo matadouro, e  perto do  campo de aviação (Albatroz). Eram tempos em  que uma geladeira custava muito caro  e não era qualquer residência  da cidade que tinha uma.  Um outro  frequentador da "casa", aqui chamado de A., fazendo sua "ronda noturna" no bordel da citada   e  vendo ali  a geladeira branca - frise-se que naquele tempo todas as geladeiras eram brancas -  ficou intrigado com o fato e depois de fazer várias perguntas às "moças que ali trabalhavam", conseguiu saber   o nome do "figurão"   que "tinha bancado"  a geladeira (ou ficado de fiador). No outro dia de manhã - como de costume - esse "frequentador" (A.)   foi até a estação rodoviária (no Ed. Jaeger)  e se aproximou de um grupo de homens  que estava "batendo um papo". Notando que o  S.  estava  no meio do grupo, chegou bem perto do grupo e disse baixinho:

Pessoal!  Sabem da última?  A  "M."  (dando o nome da dona do bordel) andou ganhando de presente  uma geladeira!  Fui  lá ontem à noite e vi a geladeira! É bem novinha, por sinal! E foi  comprada na Credi-Lar!!    (Nota:  Credi-Lar era uma loja da cidade, do João Nereu,  defronte ao  hospital,   que então vendia  a  crediário.)

    Essa "noticia" despertou a curiosidade do grupo.  Querendo "a todo pano"  saber  o nome da pessoa que tinha "presenteado"   a geladeira, um do grupo perguntou:

-   Mas  e aí,  nos conta;  quem foi  que deu a geladeira de presente? 

Aí  o gaiato (A.)  que trouxe a "notícia"  saiu-se  com essa:

- Eu ainda nao sei, mas  vou descobrir e depois eu  conto pra vocês!!!!

E com isso afastou-se do grupo, deixando o "figurão" (S.)   com   uma "pulga atrás da orelha", pois, além de ser muito conhecido na cidade, o sujeito  era casado!

8 -  A volta do farmacêutico

 Certa vez, o Euclides Prado, conhecido  narrador de futebol da Rádio Farroupilha  e também cantor nas horas vagas  - por sinal,  um bom cantor, pois tinha uma voz privilegiada  -  foi convidado pelos principais radialistas da Rádio Osório, Argeu Gomes e Antonio A Paula, para se apresentar na cidade.  Era um programa de auditório que acontecia nos  domingos de manhã!  Esse programa,  às vezes acontecia no auditório da emissora (no prédio do seu Azevedo, na R. Maj. João Marques)  ou nos palcos dos cinemas locais (Labor e   Central). O local  da apresentação dependia muito do artista  que ia se apresentar, pois o auditório da emissora era um tanto acanhado (com  poucas poltronas)!     

Na tarde daquele domingo, os  radialistas osorienses citados,  decidiram fazer um passeio a Maquiné, levando   o Euclides Prado  junto.  Para tanto contrataram o serviços  de  um taxista ( na época, o táxi era chamado de "auto-de-praça") para levá-los a Maquiné e passar a tarde  lá, voltando ao anoitecer! Junto com eles foi  um conhecido farmaceutico da cidade que  tinha  conhecidos em Maquiné e que era  muito amigo dos radialistas!

Durante a janta, os quatro viajantes  certamente pediram um galeto e  "tomaram vinho  além do normal", chegando por volta das 22 horas em Osório. Só que o farmacêutico foi "muito além"  e   "voltou de porre",  completamente  tonto, não podendo nem caminhar com as próprias pernas!  Ao chegarem a Osório, o taxi parou rente à calçada para o farmaceutico descer!  Só que que ele não conseguia ficar  "de pé"!!! Assim os radialistas e o  motorista  tiveram que carregá-lo  até a farmácia e colocá-lo na cama!

Aí,  um dos  radialistas citados,  vendo o "estado" do farmacêutico disse pesaroso:

Isso é lamentável!!!  Não podia ter acontecido!

Por coincidência naquela noite,  e um pouco antes do taxi chegar, um sujeito de fora da cidade,   precisando de um certo remédio foi até a farmácia e vendo-a com as portas fechadas, foi informado que o dono tinha saído, mas que  iria voltar em seguida. Então ficou esperando na calçada que o dono chegasse. Quando viu o grupo se aproximando da farmácia, "carregando"   uma pessoa pelos braços, perguntou:

Quem é o farmacêutico de vocês? Eu preciso comprar um remédio!

Aí um dos radialistas citados -  apontando com a palma da mão pra cima -  saiu-se com essa "preciosidade":

- O farmacêutico é esse aí!  Mas creio que hoje  ele não vai poder lhe atender!!!

Então - pra finalizar -   o sujeito que queria comprar o remédio, vendo o que "acontecia"  e o "estado"  do farmaceutico,  resolveu  desistir  da compra,  saiu furioso do local e foi ver se encontrava outra farmácia da cidade que pudesse lhe atender. 

 (Frise-se que o radialista  que apontou para o farmacêutico  tinha uma dicção impecável e uma maneira toda polida e especial de falar, certamente  devido a sua condição de locutor de rádio! Além disso, era um sujeito muito respeitoso no tratamento com outras pessoas! Tanto os radialistas citados como o farmacêutico deixaram saudades!)


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