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Página criada  em  10/Set/2015

 

 

      MUNICÍPIO  DE  OSÓRIO - RS     

                 

 

                           


 

 

 

Em memória de meu pais:

Abrahão Mamed Adib (1899-1982)

e  Olizia Correia Gomes (1911-2005)

 

Primeiros tempos:  

Meu pai  é um emigrante  que vindo  da atual Síria (que, na época, estava  sob Mandato francês) chegou ao Brasil em  1925. A família de meu pai morava  num local chamado Safita  que fica perto do porto de Tartus (no Mar Mediterrâneo). Eles moravam    na área rural  e se dedicavam  a agricultura familiar de subsistência.  Seus pais eram Mohamed (Maomé,  em português) e  Uarda (Rosa, em português).    No tocante a sua religião eu creio que meu pai pai era da seita Alauita (uma dissidência dentron do  ramo xiita). A comunidade dos Alauitas compõem a  grande maioria da população da costa síria do Mar Mediterrâneo.   Pelo que me contou, ele partiu do porto de Tartus e a viagem de navio  levou cerca de três meses. Certamente no caminho o navio parou  em portos europeus (talvez da Itália) para  descarregar ou carregar  mercadorias, descida e subida de passageiros, etc..  o Brasil o  "vapor" (navio) em que viajava aportou   em  Santos, estado de São Paulo onde ele  desembarcou. Depois de cumpridas as finalidades burocráticas de emigração, ele se deslocou para a cidade do Rio de Janeiro onde moravam conhecidos seus ("patrícios") da comunidade árabe ali estabelecida. Certamente os emigrantes já traziam junto consigo   o nome de  pessoas conhecidas  para   ajudar em caso de necessidade imediata.  Nessa cidade familiarizou-se com o novo idioma (português); costumes brasileiros; valor dos produtos (em mil réis)  e passou inicialmente a vender frutas de cesta em punho. 

Algum tempo depois, que nao sei precisar, ele decidiu se deslocar para o sul do país e veio se radicar  para Porto  Alegre. Por que  isso aconteceu? Porque ele nao se acostumou com o clima quente do Rio de Janeiro que afetava seu organismo e decidiu  se mudar para um local com clima mais ameno. Como em Porto Alegre residiam emigrantes conhecidos da  comunidade árabe do Rio de Janeiro,  indicaram a ele   nomes  que pudessem   lhe ajudar nos primeiros meses, oferecendo moradia, serviço, etc.. Por exemplo, o  irmão dele (tio Simão Dib) veio alguns anos antes para a America do Sul, mas ele  foi aportar em Buenos Aires-Argentina e depois de algum tempo, veio tambem se estabelecer em  Porto Alegre.  Certamente pelo mesmo motivo: em Porto Alegre  havia mais  conhecidos seus.   Meu pai, trazendo algum dinheiro no bolso e  certamente ajudado por algum "patrício"  aqui já estabelecido, inicialmente foi   vendedor  ambulante,  oferecendo e  vendendo mercadorias de porta em porta.  Pelo que sei,   tambem por uns tempos esteve vendendo  frutas, talvez empregado em alguma banca (de frutas).  Após isso passou a fase de mascate, viajando para  localidades  vizinhas  tais como Taquara,  Rolante, Riozinho, São Francisco de Paula  e Santo Antônio da Patrulha. Pelo que sei   ele viajava de ônibus ou de trem  de Porto Alegre  até Taquara. Dali, inicialmente a pé e depois,  conduzindo uma mula  - que trazia suas malas de mercadorias  - "mascateava"  pelo interior desses municipios. Numa dessas viagens, conheceu minha mãe, Olizia Gomes (nome de solteira) residente no distrito de Caraá, no municipio de Santo Antônio da Patrulha.  Depois de algum tempo de "namoro", certamente incentivado pelo seus futuros sogros (Belchior e Francisca),  que aspiravam um "melhor futuro" para sua filha, casou-se com ela em 1934, na igreja São Paulo, do distrito de Monjolo.  Apesar de ser da religião muçulmana  meu pai casou-se na Igreja Católica.  Tambem formalizaram seu casamento no civil, em cartório de Santo Antônio da Patrulha.  Eu fui batizado nessa mesma igreja (São Paulo), em 1946, apesar de já ter nascido em Osório. Talvez seja  porque meus padrinhos (Waltor Oliveira e Florisbela Gomes) morassem perto dali (Monjolo).

Segundo informado por minha mãe (Olizia), depois do casamento, eles foram  morar em Porto Alegre onde meu pai já  tinha um bar.  A viagem para Porto Alegre foi de ônibus. O bar de meu pai ficava  na rua Cristóvão Colombo, em frente ao Cine Ipiranga,  um ponto entre as ruas Ramiro Barcelos e Pelotas.    Logo depois mudaram-se para a rua Gaspar Martins quase  esquina   com  a  Voluntários   da   Pátria,   onde  tiveram um  restaurante.  Posteriormente, em  1936,  mudaram-se para a rua João Pessoa, em frente do Parque da Redenção,  onde tiveram uma loja  de  miudezas,  tecidos  e confecções. Depois,  mudaram sua loja para  a rua Assis Brasil,  próximo à rua Santa Catarina,  bairro São João,  onde ficaram  até final de 1937. Meus irmãos Nage e Haidê nasceram em Porto Alegre, respectivamente, em 1935 e 1936.

Em fins de 1937 ou  inicio de 1938, meus pais e seus filhos pequenos (Nage e Haidê) decidiram mudar-se para Osório. Por que Osório? Porque aqui morava um primo de meu pai (tio Fares Silveira)  que  resida e tinha casa de comercio nessa cidade. Essa casa de comércio ficava num predio antigo   que (nos anos 1950)   foi demolido e que   deu lugar ao atual  ed. Marisa, na esq. das ruas Julio de Castilhos e Manoel Marques da Rosa.  Nas sua conversas, certamente  tio Fares convidou-o para vir  morar e ter casa  de comércio em Osório. Pelo que me consta, meus pais fizeram  uma vista para o tio Fares em Osório e gostaram  do lugar.  Acresce-se que  a vinda para Osório   tambem foi incentivada   pelo  irmão de minha mãe (meu tio Marcilio Gomes) que tambem já residia em Osório com sua família. A vinda para Osório foi  de ônibus (na época chamado de "caminhão de passageiros") da empresa pertencente a uma pessoa conhecida como "Chico Pereira".  Pelo que sei, nessa época  tambem  a empresa Jaeger (de Mário Jaeger)   já tinha  linhas de ônibus entre  Porto Alegre  e cidades do estado de Santa Catarina. Essas linhas de ônibus passavam  por Gravataí, Santo Antônio da Patrulha, Osório, Torres, etc.,  findando  na  cidade de Araranguá (SC).

 

            Residência e Comércio  em  Osório:

Estabelecidos em Osório,  inicialmente alugaram uma  casa (ou peças de uma casa) que pertencia à  viúva  Brigida Sarconi. Ver foto 1 abaixo.  Nessa casa meus pais  tiveram loja  e residencia.  A loja se chamava "Casa Adib".  Essa casa era   localizada na esquina das ruas Machado de Assis e Bento Gonçalves.   Aí  ficaram  ao  longo  de  1938  com uma  loja  de miudezas,  confecções e tecidos. 

Depois de algum tempo, mudaram-se  para outro ponto, na mesma rua, alugando a casa de João (Jóca)  Madalena. Ver foto 2 abaixo, letra "A" .   Mais adiante, meus pais compraram  a casa da viúva  Albertina Marques de Oliveira (ver foto 2,  letra "B") para onde, depois de reformada,  a família se mudou. A loja de meu pai ficava na esquina e o   restante da casa servia de moradia. Nota-se da foto 2   que a casa (letra "B")  ia  (pela Bento Gonçalves)  da rua Machado de Assis até a Manoel Marques da Rosa.   Essas duas  casas (João Madalena e Albertina Marques)  foram  demolidas por volta de 1960-65  para dar lugar ao atual Edificio Guasselli (na esquina das ruas Machado de Assis e Bento Gonçalves). Nessa casa  (letra "B") meus pais tiveram  loja e residência até 1953.  Em Osório,  nasceram os outros filhos (Daecy em 1941), Carlos (em 1946) e Aloisio (em 1951).

Por volta de 1951-52, meu pai   comprou a casa da viúva Brigida Sarconi (ver casa da foto 1) e,  por ser uma casa que já estava em estado precário, ela foi  demolida, construindo em seu lugar  uma nova casa, de  nº 365, da Machado de Assis. Ver foto 3, letra "C".   Para aí, mudararam-se  em 1953.  Em Osório, meu pai  - desde que chegou em 1937/38 -    sempre  operou  com o mesmo  tipo  de  comercio:  loja de miudezas, confecções e tecidos.

Em 1970, meus pais decidiram encerrar o seu negócio e venderam   o estoque de mercadorias da loja para o Sr. Hussein (conhecido como José Patricio). A   peça de esquina da loja foi alugada  para o Sr. Hussein. Posteriomente, a peça foi alugada para o Sr. Borba (das Laranjeiras) que ali teve a loja  chamada "Casa Borba".  Depois vieram  outros inquinos tambem tiveram ali casas de comércio (Loja Ferrari, Dida Modas, etc.)  .

Notas: 1)  A  foto 1 foi obtida do livro "Remembranças de Conceição do Arroio - Vol 1", de Guido Muri. 2) As    fotos 2 e  3  foram tomadas    por Sergio Baptista por volta de 1957. 3)  A foto 2  pertence ao acervo fotográfico do Autor e a foto 3 é do acervo de Sergio Bpatista.  

Ressalte-se que quando meu pai mandou construir a  casa (foto 3, letra "C"), inicialmente ele não colocou telhado. Havia apenas uma laje de concreto sobre a casa, pois ele pretendia fazer mais um   andar em cima, mas depois ele desistiu de fazer esse novo pavimento.  Bem mais adiante, já nos anos 1960, ele teve que colocar um telhado sobre a laje de concreto, pois começaram a ocorrer infiltrações de água da chuva e o reboco do teto de algumas peças da casa  começaram a cair.  Lembro tambem que  meu pai  mandou  colocar um suporte de metal,   inclinado na parede da loja, um pouco acima da marquise, onde por muitos anos, durante a Semana da Pátria,  ele hasteava a bandeira brasileira e lá ela ficava exposta  durante a semana inteira, de dia e de noite.    

 

 

Foto 1

Foto 2  

 

Foto 3

           

 

Casa Adib:  

 Essa era o nome da loja de meu pai na cidade. Era uma loja bem simples,  típica de um comerciante árabe.  Havia um balcão grande; tablados onde se colocava as peças de fazenda (tecidos) mais vendidas  e  estantes  grandes sem tampas, indo do chão ate o teto.   Nossa loja  vendia-se tecidos para roupas masculinas (calças) e femininas;   roupas prontas (camisas, calças, blusas, etc.), miudezas  para costureiras tais como retrozes de linha, novelos de lã para blusas, novelos de linha para crochet, agulhas, botões, fechos (ziper), etc..  Vendia-se tambem artigos para o vestuario masculino e feminino.  

Geralmente meu pai ia de ônibus a Porto Alegre e lá passava o dia fazendo compras dos atacadistas árabes e judeus que tinham lojas na R. Voluntários da Pátria.   Entre esses atacadistas, eu  lembro  de  ter feitos compras  pessoalmente  nas lojas  de Mauricio Wolf, Moses Wolf, Mauricio Maltz,  Jacob Milman, Awigdor Chait , Henrique Fontana, etc.. Segundo   livro de contabilidade de nossa loja, meu pai tambem comprava de  outros atacadistas de P. Alegre; entre eles: Karnopp,   Armarinhos Leão,  Victor Gerchman, Miguel Russovsky,  A. Louro, Elias Bothomé, Curt Bercht, Abdo J.  Curi, David Sroka, etc.. É de salientar que durante todo esse tempo em que meu pai fez negócios com os  comerciantes  judeus, nunca houve um atrito ou discussão  por questões de raça e de religião. Sempre houve um respeito mútuo entre as partes, que  não se deixaram  envolver pelos acontecimentos que ocorriam no Oriente Médio.  Por parte de meu pai, eu posso testemunhar que ele sempre teve relações   de  confiança de respeito e de  simpatia  pelos negociantes judeus estabelecidos na R. Voluntários da Pátria. De modo muito  especial, ele tinha um carinho muito grande pelo Sr. Mauricio Wolf.

Geralmente meu pai ia no primeiro horario (que saía de Osório às  6h30min)  e  voltava nos ultimos horários, chegando ao final da tarde ou ao anoitecer em Osório.   Já sabíamos que  no final da tarde    tinhamos que ir esperá-lo na estação rodoviaria para trazer a mercadoria comprada.  Quando a compra de mercadorias era muito grande,  os os atacadistas mandavam as mercadorias atraves de  empresas de transporte rodoviários (como a Empresa Coutinho) que serviam o litoral norte do estado. Essas transportadoras   entregavam as mercadorias em nossa loja. 

Tambem apareciam vendedores avulsos (viajantes)   em nossa loja para oferecer mercadorias, tanto de atacadistas de P. Alegre como de outras cidades gaúchas (Novo Hamburgo, Caxias do Sul, etc.). Às vezes apareciam até vendedores de  outros estados, representando firmas de Santa Catarina, São Paulo, etc..  Nesses casos, tambem as mercadorias chegavam em nossa loja via empresas de transporte rodoviário.     

 Nota: Esse depoimento contou com a colaboração de meus irmãos.

 

            Foto da Família

De pé:  Daecy - Nage - Haidê -  Carlos ;  Sentados: Abrahão - Aloisio  -   Olizia   (1957)

 

          Dados Pessoais:

Segundo seus documentos, meu pai nasceu em Safita, Síria em 05/Ago/1899 e    faleceu em Porto Alegre  no Hospital São Lucas, da PUCRS, em  02/Dez/1982, onde estava hospitalizado. Minha  mãe nasceu no Caraá em 04/Mai/1911 e  faleceu em sua casa em Osório em 08/Jun/2005, depois de longa enfermidade. Ambos estão enterrados no Cemitério Municipal de Osório (Nossa Senhora da Conceição) no mesmo túmulo.

 

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