Voltar    

Página Inserida em Out/2015   

Memórias Pessoais

 

.

          


 

Memórias de uma Pensão  (Av. Independência, 1060):

Pensão  do "Seu Chico" !

Nota:  Com a conclusão do curso ginasial em Osório (no Ginásio Conceição), em 1962,  vários dos formandos vieram estudar em Porto Alegre, no Colégio Estadual  Júlio de Castilhos ( o Julinho), localizado no bairro Azenha, junto à  Praça Piratini onde fica a estátua do Gen.  Bento Gonçalves. Lembre-se que até então , a cidade de Osório  não tinha curso médio de formação cientifica.   Enãao alguns  formandos do Conceição  (entre eles eu, Enaldo Marques, Afonso Mallman, Danton Ilgenfritz e Jarbas Ramos)  fizeram   o  exame de admissão no final do ano de 1962 e todos fomos aprovados. Eu, o Afonso e o Danton nos matriculamos no curso diurno (à tarde) e o Enaldo e o Jarbas no curso noturno.  Eu e o Afonso fomos morar na pensão do "seu Chico",  visto que ali já hospedavam-se outros osorienses e assim  poderíamos nos "encaixar" mais facilmente.  Os demais colegas citados foram residir em outros lugares.  

1 - Localização  da Pensão: A pensão do "seu Chico"   ficava localizada na Av. Independência, no. 1060 - B. independência - Porto Alegre,  nas proximidades da  esquina da R. Fernandes Vieira  e  Pinheiro Machado. Era um prédio antigo de dois pisos (térreo e 1o. andar). Na época,  havia uma linha de bondes (Linha Auxiliadora, me parece)  que circulava  pela Av. Independência que  levava até o  centro da cidade, encerrando no  terminal da  Pça. 15 de Novembro. No outro sentido, essa mesma linha ia até o bairro Auxiliadora, terminando na altura da igreja (N. Sra. Auxiliadora), localizada na R. 24 de Outubro.  Ver localização da pensão no mapa abaixo. No mapa  Centro de Porto Alegre fica pra esquerda.

 

2 -  Proprietários -   Os proprietários da pensão eram Francisco Montana (Chico) e sua esposa Iolanda.  Nesse  local, eles moravam com as filhas já adultas   Edy e Ercy e uma filha de criação, a Maria Helena,  uma jovem  de cor preta.  "Seu Chico"  cuidava dos pagamentos e da portaria e a  dona   Iolanda  ficava no encargo de fazer a comida e servir as refeições. A Edy  e a Maria Helena ajudavam nos serviços de cozinha, faziam serviços de camareira e limpeza dos quartos, limpeza dos corredores e banheiros  e serviam a comida. A Ercy era professora, por isso  pouco  participava dos serviços da pensão.

3 -  Condições da Pensão:

a)   Havia um banheiro único no 1o. andar  para os hóspedes. Embora já houvesse chuveiro elétrico à venda, ele era muito caro na época  e se   gastava muita energia elétrica ao tomar banho. Solução adotada  pelos proprietários: Colocaram no banheiro  um  chuveiro que  funcionava na base  "do  álcool". A posição do chuveiro  era a mesma do chuveiro elétrico dos tempos atuais. Ele funcionava assim:   Derramava-se uma certa quantidade de álcool em uma bandeja e depois se  colocava  fogo no álcool, usando  fósforos  ou isqueiro.  Depois  do álcool "pegar fogo",  abria-se  a torneira e  a água  passava por uma serpentina em torno  dessa bandeja quente;  portanto o sistema  funcionava bem e  tomava-se assim um banho quente.  Ao terminar o banho, desligava-se a água  e  apagava-se o fogo do álcool.  Cada hóspede comprava  a sua garrafa de álcool e trazia  para o banheiro quando queria  tomar o seu banho.  Do mesmo modo, o papel higiênico e sabonete: cada um trazia o seu  papel e sabonete  para o banheiro  quando queria  se lavar ou usar o vaso sanitário!

b) O salão de refeição ficava  no andar térreo  com umas 5 a 6 mesas  espalhadas. Ali se tomava café da manhã (entre 7 e 9 horas); o almoço (entre 11h30min e  13 horas) e a janta (entre 18h30min e 20 horas). No térreo  havia ainda uma geladeira grande (de diversas portas) onde os donos conservavam os produtos comprados e  permitia-se  que os hospedes guardassem alguns produtos  que compravam (salame, mortadela, etc.) em 1 ou 2 compartimentos da geladeira. Mas - alertava-se -  sem ocupar muito espaço, pois havia sempre 10 ou mais hóspedes na pensão.

c) Havia 2 ou 3  quartos no andar  térreo e uns 4  ou 5 no andar superior,  destinados aos hóspedes. Os proprietários  tinham suas instalações (sala, quartos, banheiros., etc.) também no andar superior, mas  em recinto separado dos demais cômodos. Na sua área privativa, eles possuíam um televisor preto e branco, pois na época ainda não havia televisão colorida   e permitiam que os hóspedes assistissem aos programas noturnos  (novelas, musicais, etc.) junto com eles. Na época, os programas que  eram transmitidos "ao vivo" no Rio de Janeiro e São Paulo, eram enviados para Porto Alegre no dia seguinte  por  via aérea  em forma de "video-tape" (fitas de video) e  as emissoras daqui  passavam os mesmos programas já na mesma noite.   Somente a partir de 1970 com a formação da Embratel  foi que os programas "ao vivo" apresentados no centro do país  passaram a ser transmitidos simultaneamente em várias capitais brasileiras, incluindo Porto Alegre.   

4 -  Moradores da Pensão: No periodo de 1963 a 1970  - quando o autor residiu na pensão  -  estiveram hospedados, uns por pouco tempo; outros por mais tempo,  as seguintes pessoas:

a) Vindos  de Osório:  João Jesus de Silva (Joãozinho), Renato Prestes (Renatão), Antônio Carlos Chemale,   Renato Guilherme Bach Martins, Telésforo Veras,  Solon Farias Maggi,  Flávio Gomes,  Afonso Mallmann, Salvador Bertoli Gamba, Joel Clovis Nascimento, etc. Anteriormente a nossa  chegada,    outros osorienses já tinham se hospedado nessa pensão; entre eles:  Caxiense Geyer (Caxias) e João Carlos Azevedo (Branquinho).

b)  Vindos de Tramandaí:  Moacir Amaral e Amâncio Amaral

c)   Vindos de  Tapes: Atos José  Flores Machado e  Silvio  Fernando Alfonsin

Outros moradores (que lembro):  Valter Duarte, Irineu ? (que depois foi funcionário da Sudesul); Nereu ? (funcionário do  DMAE), Olmiro Endres (funcionário do Tribunal de Justiça), Aquiles Rocha (funcionário do Banrisul), Telmo Griebler, ? Vieira, ? (Cearense),  etc.

5- Fotografias

Nas fotos abaixo, aparecem alguns integrantes dos hóspedes da pensão:

Foto 1 (Casamento realizado em Osório) :  Em cima:   Salvador Gamba(1), Silvio Alfonsin (2), Afonso Mallmann (3),  Joel Nascimento (4), Eraldo Marques (5),

            José Nunes (6), Atos Flores (7), Enaldo Marques (8), Renato Bach (9), Carlos Adib (10) e Heron Amaral (11)

 

 

 

Foto 1

 

 

Foto 2 (Futebol de salão na Pça. da Redenção):   De pé: Carlos Adib, Valter Duarte e Afonso Mallmann -   Agachados: Renato Bach e  Aquiles Rocha.

Foto 3 (Futebol de salão na Pça. da Redenção):   De pé: Enaldo Marques, Renato Bach, Solon Maggi, Tadeu Marques, ?   e Eralmo Marques (?)  -   Agachados: Eraldo Marques - Valter Duarte - Afonso Mallmann, Aquiles Rocha - Carlos Adib e Evaldo Marques.

 

Foto 2

 

Foto 3

 

6 -  Algumas histórias  pitorescas ali ocorridas:

6.1)  -  A Lâmpada   do Banheiro

Em certo momento, alguns hóspedes (os   mais desleixados) que   usavam o banheiro de noite,   ao sair, não desligavam a luz. Com isso  a lâmpada ficava ligada a noite toda, gastando luz à toa, iluminando as paredes...Quando os donos da pensão - que levantavam cedo, antes das 6 horas - viam isso, desligavam a luz. Muito bem....  Mas isso se repetiu várias noites seguidas ou intercaladas. Alguns usuários do banheiro à noite desligavam  a luz; outros não.  Então os donos pediram, educadamente,   aos hóspedes  que não esquecessem de desligar a luz ao sair do banheiro, pois a conta da luz estava ficando cara. Não adiantou!  A luz continuou   a ser deixada acesa de noite. Os relapsos não estavam "nem aí" pro consumo de luz. Azar dos donos!! Eles é que iam pagar!

Vendo que pedir aos hóspedes, não adiantou nada, o que fizeram os donos da pensão? Todas as noites, antes de  deitar, por volta de 23 horas, pediam que  a Maria Helena (a filha de criação) fosse  retirar a lâmpada do soquete, deixando o banheiro às escuras!!!  Lá ia a Maria Helena, subia  numa cadeira e retirava a lâmpada.    No outro dia,  cedo da manhã  recolocavam  a lâmpada no lugar.  Assim, quando algum hóspede precisava ir no banheiro à noite tinha que levar uma lâmpada junto com ele. Ou seja, além do papel higiênico (se fosse  usar o vaso sanitário) tinha que levar também uma lâmpada pra iluminar o ambiente. Subia-se numa cadeira, colocava-se  a lâmpada, fazia-se as "necessidades", e ao sair, subia-se  na cadeira de novo e retirava-se a lâmpada.  Virou "um saco"  essa função!!!  E assim foi por algum tempo... Mas não por muito!

Um dos hóspedes, irritou-se com essa situação inusitada,  ou seja, além do papel higiênico e sabonete, ter que  levar uma lâmpada pro banheiro à noite. E o  que ele fez, só   de "sacanagem"?  Em certo momento, de dia ou de noite, ninguém sabe, ele   entrou no banheiro; fechou a porta por dentro, retirou a lâmpada do lugar, lambuzou bem   as laterais rosqueadas (da lâmpada) com  cola Araldite (que ele  havia levado  escondida no bolso)    e colocou a lâmpada de novo no soquete. Pronto: a lâmpada ficou bem grudada no soquete!!! Agora ninguém mais ia tirá-la do lugar!!!   Naquela  mesma  noite, a Maria Helena - como de hábito -   foi ao banheiro, subiu na cadeira  e ao tentar retirar a lâmpada, não conseguiu! Fez de tudo, mas não conseguiu. Estava muito difícil de sair!  Então ela avisou os donos que vieram ao banheiro e  também não conseguiram retirar a lâmpada! Chamaram então alguns hóspedes e ninguém conseguia "sacar" aquela maldita lâmpada do lugar...E o "sujeito"  que colocou a lâmpada lambuzada de cola  ficou bem quietinho, na sua cama,  dormindo como um anjo...

E assim foi... A   lâmpada ficou no lugar e já  não se precisava mais levar outra lâmpada   pro banheiro à noite!  Mas  não durou muito tempo; alguns  tempo  depois a lâmpada "queimou"!!!!   E agora: como trocar a lâmpada? Ninguém conseguia tirar a madita do lugar. Tiveram que  chamar  um eletricista. Ele veio, cortou os fios e  a lâmpada foi retirada com soquete e tudo, pois não havia outro jeito. Tudo aquilo   foi  botado  no lixo! Substituiu-se o soquete e colocou-se uma lâmpada nova!  A luz voltou ao banheiro!  Depois disso, a lâmpada não foi mais retirada do banheiro; os hóspedes também  passaram a colaborar, vigiando-se uns aos outros e  assim a situação voltou ao normal!

6.2  - A "carta"  da namorada

Havia um  dos rapazes   tapenses que morava na pensão  que tinha deixado uma namorada em Tapes. Ele tinha essa namorada lá, mas vivia namorando ou paquerando outras garotas aqui de  Porto Alegre, pois o cara era  "metido a gostoso".  Ele nos contou certo dia  que a namorada tapense estava  ficando com ciúme por cauda disso, pois vezes ele nao ia a Tapes nos fins-de-semana. Assim  quando ele ia a Tapes,  ela metia bronca!

Entao decidimos fazer uma sacanagem com ele!  Pegamos - sem ele saber -  uma carta que ela tinha enviado de Tapes  e levamos a carta a um dos  colegas de pensao  que  tinha uma rara  habilidade para  escrever "falsificando a letra" de outra pessoa.  O "falsificador" escreveu uma carta bem   melosa onde a moça  tapense  estava "dando um bronca" no nosso colega de pensão, ameaçando "dar um fora nele".  

Depois disso, fomos a agência do  Correio e ali colocamos a carta - com selo e tudo - com o o nome da remetente (a moça de Tapes) e  o destinatário (o nosso colega de pensão), tudo bem direitinho (endereço, etc.). Pois a carta foi entregue na pensão!   Ao voltar da aula no Rosário,  onde  estudava, o nosso colega  abriu o envelope e leu a carta  da namorada. Apesar de desconfiar um pouco da letra, leu e releu a carta, mas  jamais imaginou que a carta era "fria"!

Vendo-o um tanto pesaroso, nós perguntamos o motivo da preocupação  e ele  nos disse o motivo: que  tinha recebido uma carta da namorada em que ela "nao queria mais saber" dele! Aí demos a ele uma palavra de conforto;  dissemos que tudo ia se resolver quando ele fosse Tapes, etc.. E o assunto morreu aí!

À noite, decidimos ir ao cinema!  Saimos cedo da noite da Independencia, descemos a Felipe Camarão  e fomos ver um filme (Sonho de Amor)  no  "Cine Atlas", que ficava localizado bem no inicio da Protasio Alves.  Quando o assunto (da carta) vinha à tona, a gente procurava dar uma palavra de conforto ao nosso colega. Depois da sessão de cinema,  "não nos aguentamos mais"   e - na volta -  decidimos contar a "a verdade" pro nosso colega!!!  Aí nos divertimos à custa dele!  De inicio ele ficou brabo com a brincadeira, mas depois levou na esportiva e ficou tudo em paz!!!

 

6.3 -  Passeando com a farda de milico

Essa me contaram.  O   Branquinho (José Carlos de Azevedo) ali pelos anos 1950, foi trabalhar em Porto Alegre  e hospedou-se na Pensão do Seu Chico, na Av. Independencia no.  1060, onde se hospedavam   muitos osorienses.  Certo  sábado, querendo sair  pra rua  e  nao tendo uma roupa melhor pra vestir, decidiu botar a farda de milico de um  colega de quarto.  Esse colega estava servindo no exercito  e havia ido  visitar seus parentes no interior,  deixando a farda no armário.  Aí o Branquinho colocou a farda, botina e boné    e saiu pra rua, descendo a pé  a Av. Independencia em direção ao centro. 

No caminho, ele notou que um outro milico (ou oficial  fardado)  ao passar por ele, bateu  continência!  E ele, de surpresa e  meio desajeitado, respondeu batendo  continência também.  E assim foi.  Caminhou e caminhou  pelo centro e sempre que que  via algum  milico ou oficial vindo na direção dele já se preparava de antemão e batia continencia pro militar!

 


Voltar